quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Maria Eduarda Nogueira de Paula


 Maria Eduarda Nogueira de Paula, carinhosamente conhecida como Duda, foi uma jovem católica de Juiz de Fora (MG) que faleceu aos 17 anos em decorrência de um câncer. Nascida em 28 de dezembro de 2007, ela é descrita pelo arcebispo-emérito dom Gil Antônio Moreira como uma "versão feminina de são Carlo Acutis" devido à sua profunda devoção e semelhança espiritual com o jovem beato.

Sua trajetória de fé foi marcada por uma entrega total a Deus e à Igreja, especialmente durante o período em que enfrentou a doença:

  • Raízes e Início na Fé: Desde a infância, Duda participava ativamente da vida paroquial, atuando em procissões e coroações marianas. Recebeu a primeira comunhão em 2017 e serviu como coroinha.
  • Enfrentamento da Doença: Aos 14 anos, foi diagnosticada com sarcoma de Ewing em estado avançado. Durante o tratamento, que incluiu uma fase na Espanha, ela enfrentou complicações graves, como uma lesão no esôfago que a impedia de engolir; em certo período, alimentou-se apenas da Eucaristia por cinco dias.
  • Alegria no Sofrimento: Aqueles que a conheceram relatam que ela vivia a dor com alegria, sem reclamações, e chegava a agradecer pela doença por sentir que podia se unir ao sofrimento de Cristo. Sua frase marcante era: "De que adiantaria ser curada logo, esquecer o milagre e abandonar a fé?".
  • Evangelização Digital: Assim como Carlo Acutis, Duda utilizava a internet para evangelizar, realizando transmissões ao vivo para rezar o terço e falar sobre a vida dos santos. Ela também aprendia a fazer rosários online, vendendo-os para ajudar no custo do tratamento e distribuindo-os para incentivar a devoção mariana.
  • Apostolado Familiar: Duda foi fundamental na vida espiritual de seus pais, incentivando-os a casar na Igreja e a receber os sacramentos. No Natal de 2024, seu pedido de presente foi que a família se confessasse para passar o nascimento de Jesus em estado de graça.
  • Fama de Santidade: Maria Eduarda faleceu em 17 de janeiro de 2025. Devido ao seu testemunho, dom Gil Antônio Moreira entregou ao papa um dossiê sobre sua vida em julho de 2025, afirmando que ela possui fama de santidade em Juiz de Fora.

Seu quarto no hospital era descrito como um local de celebração e oração, e sua vida é vista como um exemplo de virtudes heroicas e amor às almas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A passagem dos Discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35)

 A passagem dos Discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35) é frequentemente lida como o "ícone bíblico" da celebração eucarística.

“Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando”

A caminhada de dois discípulos cabisbaixos rumo a Emaús não é apenas um relato histórico; é o espelho da nossa própria jornada espiritual. No crepúsculo daquelas vidas marcadas pela frustração, o próprio Ressuscitado se aproxima. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC 1347), a estrutura da Missa segue exatamente o padrão desse encontro pascal.

1. O Encontro no Caminho: Ritos Iniciais

·         A Escritura (Lc 24, 13-24): Jesus se aproxima e caminha com eles, perguntando sobre suas dores.

·         A Liturgia: Nos Ritos Iniciais, o Senhor se faz presente na assembleia. Como os discípulos que confessam suas tristezas, nós iniciamos reconhecendo nossa condição no Ato Penitencial. É o momento em que o Senhor "se aproxima" para caminhar conosco, transformando nossa dispersão em comunidade.

2. O Coração que Arde: Liturgia da Palavra

·         A Escritura (Lc 24, 25-27): "E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras".

·         A Liturgia: Na Liturgia da Palavra, não ouvimos apenas textos antigos, mas a voz viva de Cristo. Como disse São Jerônimo, Doutor da Igreja, "Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo". Quando a Palavra é proclamada e explicada na homilia, o "coração arde" (Lc 24, 32), pois é o Espírito Santo quem remove o véu dos nossos olhos.

3. O Partir do Pão: Liturgia Eucarística

·         A Escritura (Lc 24, 28-33): No ápice do encontro, Ele senta-se à mesa, toma o pão, abençoa-o, parte-o e o dá a eles.

·         A Liturgia: Este é o momento central da Liturgia Eucarística. É no gesto sacramental que o reconhecimento acontece. O CIC 1329 recorda que a "Fração do Pão" é um dos nomes mais antigos da Missa. Onde a palavra preparou o terreno, o Sacramento realiza a união física e espiritual. "Fica conosco, Senhor" é o clamor de quem descobriu que a verdadeira luz não vem do sol que se põe, mas da Hóstia que se eleva.

4. A Missão que Nasce: Ritos Finais

·         A Escritura (Lc 24, 34-35): Eles não ficam parados. No mesmo instante, retornam a Jerusalém para anunciar: "O Senhor ressuscitou verdadeiramente!".

·         A Liturgia: Os Ritos Finais não são um encerramento, mas um envio. A palavra Missa deriva de missio (missão). Tendo encontrado o Senhor na Palavra e no Pão, somos impelidos a voltar para a nossa "Jerusalém", nossas famílias, trabalhos e dores, para testemunhar que a noite já não é escura.

Reflexão Final: Nossa Caminhada

O encontro com o Senhor em Emaús nos ensina que a fé não é uma ideia, mas um acontecimento. Como ensinou Santo Agostinho, Aquele que partiu o pão conosco na estrada é o mesmo que nos sustenta na fadiga da vida.

A Missa é, portanto, o nosso "Emaús semanal". Entramos cegos e saímos vendo; entramos desanimados e saímos missionários. Que o nosso pedido seja sempre o mesmo: "Mane nobiscum, Domine", Fica conosco, Senhor, pois sem Ti o caminho é longo demais e a noite, fria demais.

Esta é uma proposta de oração que sintetiza a reflexão teológica da Missa com o apelo do coração que busca a presença de Deus, inspirada na espiritualidade de Santo Agostinho e na liturgia da Igreja.

 


Oração do Caminhante de Emaús

Senhor Jesus, Divino Peregrino,

Tu que te aproximas de nós mesmo quando nossos olhos estão retidos pela tristeza,

nós Te pedimos: fica conosco, pois já é tarde.

Fica conosco quando a noite da dúvida tenta apagar a chama da nossa esperança.

Aproxima-te de nós em nossa caminhada diária e, pelos Ritos Iniciais da Tua graça,

recolhe nossos cansaços e perdoa nossas faltas, unindo-nos como Teu corpo místico.

Abre para nós as Escrituras, Senhor!

Que na Liturgia da Palavra, o Teu Espírito Santo faça arder o nosso coração.

Não permitas que sejamos apenas ouvintes distraídos,

mas que a Tua Verdade ilumine nossas trevas e nos dê a inteligência da fé.

Senta-te à nossa mesa, ó Mestre da Caridade.

Na Liturgia Eucarística, ao partir o Pão, revela-nos a Tua Face.

Que ao Te recebermos na Sagrada Comunhão,

não apenas Te reconheçamos, mas nos tornemos aquilo que recebemos:

um sinal vivo da Tua presença e do Teu sacrifício.

Por fim, Senhor, não permitas que guardemos esse fogo só para nós.

Nos Ritos Finais da nossa oração, envia-nos de volta ao mundo com pressa e alegria.

Dá-nos pés missionários para anunciar aos nossos irmãos

que Tu estás vivo e que a morte já não tem a última palavra.

Pois Tu és o Caminho, a Verdade e a Vida,

hoje e por toda a eternidade.

Amém.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Equilíbrio da Fé

O Equilíbrio da Fé: A Via Média entre o Tradicionalismo e o Relativismo

Resumo: O presente texto reflete sobre o desafio da vivência cristã contemporânea diante de dois polos extremos: o tradicionalismo de ruptura e o relativismo secularizante. Propõe-se, sob a luz da Doutrina e do Direito Canônico, a obediência amorosa à Igreja como o caminho de autêntica comunhão.

Introdução

No cenário eclesial contemporâneo, quem busca zelar pela sã doutrina e pela liturgia vigente encontra-se, muitas vezes, em um "fogo cruzado". De um lado, o tradicionalismo radical que, ao absolutizar formas pretéritas, corre o risco de cair na desobediência ao Magistério Vivo. De outro, o relativismo, que esvazia os símbolos e a metafísica do sagrado, reduzindo a fé a um humanismo vago.

1. O Risco do Engessamento: A Questão do Tradicionalismo

O amor à Tradição é um dever de todo católico. No entanto, a Tradição não é um "museu de formas mortas", mas, como dizia o teólogo Yves Congar, um rio vivo que flui. O Código de Direito Canônico (Cân. 754) estabelece que todos os fiéis estão obrigados a observar as constituições e decretos que a autoridade legítima da Igreja propõe.

O tradicionalismo que nega a validade da reforma litúrgica ou do Magistério atual incorre no erro da autorreferencialidade. Ao julgar-se "mais fiel que o Papa", esse movimento acaba por ferir a unidade eclesial, esquecendo que a Igreja é guia pelo Espírito Santo também no presente.

2. O Risco do Esvaziamento: O Perigo do Relativismo

No polo oposto, o relativismo busca adaptar a fé aos moldes do mundo, ignorando que os ritos litúrgicos não nos pertencem. A Liturgia é o exercício do múnus sacerdotal de Cristo (SC 7). Quando se remove a dimensão do sagrado e o rigor doutrinário em nome de uma suposta "inclusividade", o que resta é um símbolo vazio de seu conteúdo metafísico.

Santo Agostinho já alertava: "Se crês no que gostas no Evangelho e rejeitas o que não gostas, não crês no Evangelho, mas em ti mesmo". O relativismo não é acolhimento, é esvaziamento da Verdade que liberta (Jo 8, 32).

3. A Obediência como Ato de Amor e Centralidade em Cristo

A chave para superar essa polarização é a obediência filial. O Catecismo da Igreja Católica (§87) recorda que o Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serve. Quem segue o Missal Romano atual e as orientações do Código de Direito Canônico não está sendo "modernista", mas sim eclesial.

Zelar pelo correto não é um ato de soberba, mas de caridade. A obediência aos ritos e à doutrina atualizada protege o fiel do subjetivismo. Como ensinava São Tomás de Aquino, a virtude está no meio (in medio virtus). Esse "meio" não é a mornidão, mas a retidão que evita o abismo do fanatismo e o deserto do ceticismo.

Conclusão

Manter-se firme no propósito de servir a Deus na Sagrada Liturgia da Igreja, respeitando as normas vigentes, é um ato de resistência espiritual. É ser sinal de contradição para ambos os lados. Ao não ceder nem ao retrocesso que exclui, nem ao relativismo que dissolve, o cristão torna-se o ponto de equilíbrio onde Cristo permanece presente, real e eficaz. A Igreja é nossa Mãe e Mestra; segui-la com amor e zelo é o caminho mais seguro para a santidade.

Referências Bibliográficas

  • AQUINO, Tomás de. Suma Teológica.

  • BENTO XVI. Carta aos Bispos que acompanha o Motu Proprio Summorum Pontificum. 2007.

  • CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. Vaticano, 1983.

  • CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia.

  • GOOGLE. Gemini (Versão 2.5 Flash). Modelo de linguagem de grande escala. Resposta a prompt sobre reflexão eclesial católica. Gerado em: 27 jan. 2026.

  • IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.

    Diác. Adriano Gomes

    Formatação ABNT, inserção de Citações  e cruzamento de referencias com auxilio de GOOGLE. Gemini (Versão 2.5 Flash).

sábado, 3 de janeiro de 2026

A Igreja e o Último Adeus:

A Igreja e o Último Adeus: Quem Pode (e Quem Não Pode) Receber as Exéquias Cristãs?

O momento da morte é um dos mais sagrados e delicados na vida da comunidade cristã. As exéquias eclesiásticas, porém, não são apenas um "rito de despedida" social; elas possuem um significado teológico profundo. São um sacramental pelo qual a Igreja suplica o auxílio espiritual para o falecido, honra o corpo que foi templo do Espírito e comunica aos vivos o consolo da esperança na ressurreição.

Contudo, surge frequentemente a dúvida: a Igreja pode negar o rito funerário a alguém? Baseado nas Escrituras, na Tradição dos Padres e no Código de Direito Canônico (CDC), exploramos as razões formais por trás dessa disciplina.


1. O Vínculo da Fé: O Caso dos Não Batizados

A razão pela qual a Igreja não realiza exéquias para não batizados é, antes de tudo, teológica. O Batismo é o que o Direito Canônico chama de janua sacramentorum — a porta de entrada para todos os outros sacramentos e para a própria Igreja.

  • A Identidade do Rito: As exéquias são a celebração de um membro do Corpo Místico de Cristo. Sem o Batismo, o indivíduo não se incorporou formalmente a esse Corpo.

  • A Exceção da Caridade: O Direito Canônico (Cân. 1183) é sensível e prevê exceções: catecúmenos (que desejavam o batismo) e crianças cujos pais pretendiam batizá-las, mas que faleceram prematuramente, podem receber o rito.

  • Destino Eterno: A ausência de exéquias não significa um julgamento sobre a salvação da alma; a Igreja confia os não batizados à infinita misericórdia divina em suas orações privadas.


2. A Liberdade e a Ruptura: Apóstatas, Hereges e Cismáticos

A negação das exéquias a este grupo (Cân. 1184) baseia-se no respeito à liberdade de escolha do falecido e na verdade litúrgica.

  • Definições: O apóstata é quem renega a fé cristã integralmente; o herege nega uma verdade de fé; o cismático recusa a comunhão com o Papa.

  • O Conflito de Vontades: Se uma pessoa passou a vida rejeitando publicamente a comunhão com a Igreja, seria uma falsidade litúrgica e um desrespeito à sua memória impor-lhe um rito que ela mesma desprezou.

  • Sinais de Arrependimento: A Igreja sempre prefere a misericórdia. Se, antes de morrer, o indivíduo deu qualquer sinal de arrependimento (um pedido de perdão, um sinal da cruz, o desejo de um padre), as exéquias são prontamente concedidas.


3. A Compreensão da Fragilidade: O Caso dos Suicidas

Este é o ponto onde a disciplina da Igreja mais evoluiu, movida pela compreensão da ciência e pela compaixão pastoral.

  • O Contexto Histórico: No passado, o suicídio era punido com a negação das exéquias por ser visto como um ato final de desespero e rebeldia contra Deus.

  • A Mudança no Direito: O Código de Direito Canônico de 1983 não proíbe mais as exéquias para suicidas. O Catecismo da Igreja Católica (n. 2282-2283) explica que "graves distúrbios psíquicos, a angústia ou o medo grave" podem diminuir a responsabilidade de quem retira a própria vida.

  • A Prática Atual: Hoje, a Igreja reza e celebra as exéquias por essas pessoas, reconhecendo que apenas Deus conhece as profundezas do coração humano e as vias de arrependimento no instante final.


4. O "Pecado Manifesto" e o Escândalo Público

Por fim, o Cânon 1184 determina que podem ser privados de exéquias aqueles que são conhecidos como pecadores manifestos, cujos funerais causariam escândalo público aos fiéis.

O que é o escândalo? Não é apenas "falar mal", mas confundir os fiéis sobre o que é certo ou errado. Se um funeral público parecer uma "aprovação" de um estilo de vida gravemente contrário ao Evangelho, a Igreja pode restringir o rito para proteger a integridade da fé comunitária.


Conclusão

A disciplina das exéquias não existe para "punir" o morto,  pois o julgamento pertence apenas a Deus, mas para preservar a coerência da fé e o significado do pertencimento à Igreja. Em todos os casos, a Igreja nunca deixa de orar, de forma privada, por cada alma, confiando que o amor de Deus ultrapassa as fronteiras das normas humanas.