quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A passagem dos Discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35)

 A passagem dos Discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35) é frequentemente lida como o "ícone bíblico" da celebração eucarística.

“Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando”

A caminhada de dois discípulos cabisbaixos rumo a Emaús não é apenas um relato histórico; é o espelho da nossa própria jornada espiritual. No crepúsculo daquelas vidas marcadas pela frustração, o próprio Ressuscitado se aproxima. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC 1347), a estrutura da Missa segue exatamente o padrão desse encontro pascal.

1. O Encontro no Caminho: Ritos Iniciais

·         A Escritura (Lc 24, 13-24): Jesus se aproxima e caminha com eles, perguntando sobre suas dores.

·         A Liturgia: Nos Ritos Iniciais, o Senhor se faz presente na assembleia. Como os discípulos que confessam suas tristezas, nós iniciamos reconhecendo nossa condição no Ato Penitencial. É o momento em que o Senhor "se aproxima" para caminhar conosco, transformando nossa dispersão em comunidade.

2. O Coração que Arde: Liturgia da Palavra

·         A Escritura (Lc 24, 25-27): "E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras".

·         A Liturgia: Na Liturgia da Palavra, não ouvimos apenas textos antigos, mas a voz viva de Cristo. Como disse São Jerônimo, Doutor da Igreja, "Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo". Quando a Palavra é proclamada e explicada na homilia, o "coração arde" (Lc 24, 32), pois é o Espírito Santo quem remove o véu dos nossos olhos.

3. O Partir do Pão: Liturgia Eucarística

·         A Escritura (Lc 24, 28-33): No ápice do encontro, Ele senta-se à mesa, toma o pão, abençoa-o, parte-o e o dá a eles.

·         A Liturgia: Este é o momento central da Liturgia Eucarística. É no gesto sacramental que o reconhecimento acontece. O CIC 1329 recorda que a "Fração do Pão" é um dos nomes mais antigos da Missa. Onde a palavra preparou o terreno, o Sacramento realiza a união física e espiritual. "Fica conosco, Senhor" é o clamor de quem descobriu que a verdadeira luz não vem do sol que se põe, mas da Hóstia que se eleva.

4. A Missão que Nasce: Ritos Finais

·         A Escritura (Lc 24, 34-35): Eles não ficam parados. No mesmo instante, retornam a Jerusalém para anunciar: "O Senhor ressuscitou verdadeiramente!".

·         A Liturgia: Os Ritos Finais não são um encerramento, mas um envio. A palavra Missa deriva de missio (missão). Tendo encontrado o Senhor na Palavra e no Pão, somos impelidos a voltar para a nossa "Jerusalém", nossas famílias, trabalhos e dores, para testemunhar que a noite já não é escura.

Reflexão Final: Nossa Caminhada

O encontro com o Senhor em Emaús nos ensina que a fé não é uma ideia, mas um acontecimento. Como ensinou Santo Agostinho, Aquele que partiu o pão conosco na estrada é o mesmo que nos sustenta na fadiga da vida.

A Missa é, portanto, o nosso "Emaús semanal". Entramos cegos e saímos vendo; entramos desanimados e saímos missionários. Que o nosso pedido seja sempre o mesmo: "Mane nobiscum, Domine", Fica conosco, Senhor, pois sem Ti o caminho é longo demais e a noite, fria demais.

Esta é uma proposta de oração que sintetiza a reflexão teológica da Missa com o apelo do coração que busca a presença de Deus, inspirada na espiritualidade de Santo Agostinho e na liturgia da Igreja.

 


Oração do Caminhante de Emaús

Senhor Jesus, Divino Peregrino,

Tu que te aproximas de nós mesmo quando nossos olhos estão retidos pela tristeza,

nós Te pedimos: fica conosco, pois já é tarde.

Fica conosco quando a noite da dúvida tenta apagar a chama da nossa esperança.

Aproxima-te de nós em nossa caminhada diária e, pelos Ritos Iniciais da Tua graça,

recolhe nossos cansaços e perdoa nossas faltas, unindo-nos como Teu corpo místico.

Abre para nós as Escrituras, Senhor!

Que na Liturgia da Palavra, o Teu Espírito Santo faça arder o nosso coração.

Não permitas que sejamos apenas ouvintes distraídos,

mas que a Tua Verdade ilumine nossas trevas e nos dê a inteligência da fé.

Senta-te à nossa mesa, ó Mestre da Caridade.

Na Liturgia Eucarística, ao partir o Pão, revela-nos a Tua Face.

Que ao Te recebermos na Sagrada Comunhão,

não apenas Te reconheçamos, mas nos tornemos aquilo que recebemos:

um sinal vivo da Tua presença e do Teu sacrifício.

Por fim, Senhor, não permitas que guardemos esse fogo só para nós.

Nos Ritos Finais da nossa oração, envia-nos de volta ao mundo com pressa e alegria.

Dá-nos pés missionários para anunciar aos nossos irmãos

que Tu estás vivo e que a morte já não tem a última palavra.

Pois Tu és o Caminho, a Verdade e a Vida,

hoje e por toda a eternidade.

Amém.

 

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