A passagem dos Discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35) é frequentemente lida como o "ícone bíblico" da celebração eucarística.
“Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a
noite vem chegando”
A caminhada de dois discípulos cabisbaixos rumo a Emaús
não é apenas um relato histórico; é o espelho da nossa própria jornada
espiritual. No crepúsculo daquelas vidas marcadas pela frustração, o próprio
Ressuscitado se aproxima. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC 1347), a estrutura da Missa segue
exatamente o padrão desse encontro pascal.
1. O Encontro no Caminho: Ritos Iniciais
·
A
Escritura (Lc 24, 13-24): Jesus
se aproxima e caminha com eles, perguntando sobre suas dores.
·
A
Liturgia: Nos Ritos Iniciais, o Senhor se faz presente na assembleia. Como
os discípulos que confessam suas tristezas, nós iniciamos reconhecendo nossa
condição no Ato Penitencial. É o momento em que o Senhor "se aproxima"
para caminhar conosco, transformando nossa dispersão em comunidade.
2. O Coração que Arde: Liturgia da Palavra
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A
Escritura (Lc 24, 25-27): "E,
começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se
achava em todas as Escrituras".
·
A
Liturgia: Na Liturgia da Palavra, não ouvimos apenas textos antigos, mas a
voz viva de Cristo. Como disse São Jerônimo, Doutor da Igreja, "Ignorar
as Escrituras é ignorar o próprio Cristo". Quando a Palavra é
proclamada e explicada na homilia, o "coração arde" (Lc 24, 32), pois é o Espírito Santo
quem remove o véu dos nossos olhos.
3. O Partir do Pão: Liturgia Eucarística
·
A
Escritura (Lc 24, 28-33): No
ápice do encontro, Ele senta-se à mesa, toma o pão, abençoa-o, parte-o e o dá a
eles.
·
A
Liturgia: Este é o momento central da Liturgia Eucarística. É no gesto
sacramental que o reconhecimento acontece. O CIC 1329 recorda que a "Fração
do Pão" é um dos nomes mais antigos da Missa. Onde a palavra
preparou o terreno, o Sacramento realiza a união física e espiritual. "Fica
conosco, Senhor" é o clamor de quem descobriu que a verdadeira
luz não vem do sol que se põe, mas da Hóstia que se eleva.
4. A Missão que Nasce: Ritos Finais
·
A
Escritura (Lc 24, 34-35): Eles
não ficam parados. No mesmo instante, retornam a Jerusalém para anunciar: "O
Senhor ressuscitou verdadeiramente!".
·
A
Liturgia: Os Ritos Finais não são um encerramento, mas um envio. A palavra
Missa deriva de missio (missão).
Tendo encontrado o Senhor na Palavra e no Pão, somos impelidos a voltar para a
nossa "Jerusalém", nossas famílias, trabalhos e dores, para
testemunhar que a noite já não é escura.
Reflexão Final: Nossa Caminhada
O encontro com o Senhor em Emaús nos ensina que a fé não é
uma ideia, mas um acontecimento. Como ensinou Santo Agostinho, Aquele que
partiu o pão conosco na estrada é o mesmo que nos sustenta na fadiga da vida.
A Missa é, portanto, o nosso "Emaús semanal".
Entramos cegos e saímos vendo; entramos desanimados e saímos missionários. Que
o nosso pedido seja sempre o mesmo: "Mane nobiscum, Domine", Fica
conosco, Senhor, pois sem Ti o caminho é longo demais e a noite, fria demais.
Esta é uma proposta de oração que sintetiza a reflexão
teológica da Missa com o apelo do coração que busca a presença de Deus,
inspirada na espiritualidade de Santo Agostinho e na liturgia da Igreja.
Oração do Caminhante de Emaús
Senhor Jesus, Divino
Peregrino,
Tu que te aproximas
de nós mesmo quando nossos olhos estão retidos pela tristeza,
nós Te pedimos: fica
conosco, pois já é tarde.
Fica conosco quando a
noite da dúvida tenta apagar a chama da nossa esperança.
Aproxima-te de nós em
nossa caminhada diária e, pelos Ritos Iniciais da Tua graça,
recolhe nossos
cansaços e perdoa nossas faltas, unindo-nos como Teu corpo místico.
Abre para nós as
Escrituras, Senhor!
Que na Liturgia da
Palavra, o Teu Espírito Santo faça arder o nosso coração.
Não permitas que
sejamos apenas ouvintes distraídos,
mas que a Tua Verdade
ilumine nossas trevas e nos dê a inteligência da fé.
Senta-te à nossa
mesa, ó Mestre da Caridade.
Na Liturgia
Eucarística, ao partir o Pão, revela-nos a Tua Face.
Que ao Te recebermos
na Sagrada Comunhão,
não apenas Te reconheçamos,
mas nos tornemos aquilo que recebemos:
um sinal vivo da Tua
presença e do Teu sacrifício.
Por fim, Senhor, não
permitas que guardemos esse fogo só para nós.
Nos Ritos Finais da
nossa oração, envia-nos de volta ao mundo com pressa e alegria.
Dá-nos pés
missionários para anunciar aos nossos irmãos
que Tu estás vivo e
que a morte já não tem a última palavra.
Pois Tu és o Caminho,
a Verdade e a Vida,
hoje e por toda a
eternidade.
Amém.
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