A afirmação do princípio de Sola Scriptura, isto é, de que apenas a Escritura seria a autoridade final da fé, encontra dificuldades quando confrontada com a própria lógica bíblica e com o testemunho da Igreja primitiva. A reflexão a partir de Evangelho de João oferece um bom ponto de partida.
A própria Escritura afirma que
não contém tudo
No final do Evangelho de João lemos:
“Jesus fez ainda
muitas outras coisas; se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo
inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever.” (Jo 21,25)
Essa afirmação indica claramente que nem tudo o
que Cristo ensinou foi registrado por escrito. Logo, se toda a revelação
cristã estivesse limitada apenas ao texto bíblico, haveria uma lacuna entre
aquilo que Cristo transmitiu e aquilo que foi efetivamente escrito.
Portanto, a própria Escritura sugere a existência
de uma transmissão da fé que ultrapassa o texto escrito.
A Igreja primitiva transmitia a
fé também oralmente
Os Apóstolos não ensinaram apenas por escritos.
Eles pregaram, instruíram e formaram comunidades antes mesmo de existir
o Novo Testamento completo.
A Segunda Carta aos Tessalonicenses testemunha
isso:
“Portanto, irmãos, permanecei firmes e conservai as
tradições que aprendestes de viva voz ou por carta.” (2Ts 2,15)
Aqui aparece claramente que a fé apostólica foi
transmitida por dois meios complementares:
- por escrito
(as cartas)
- oralmente (a tradição apostólica)
Se apenas a Escritura fosse a regra absoluta, essa
distinção feita pelo próprio texto bíblico não faria sentido.
A Bíblia não define sozinha o seu
próprio cânon
Outro ponto fundamental: a própria Bíblia não
contém uma lista inspirada de quais livros pertencem à Bíblia.
A definição do cânon, quais livros são realmente
Escritura, foi discernida pela Igreja ao longo dos primeiros séculos,
especialmente em concílios como o Concílio de Cartago.
Assim, há um paradoxo lógico no princípio da Sola
Scriptura: para saber quais livros são Escritura, é necessário confiar
na autoridade da Igreja que os reconheceu.
A interpretação da Escritura
exige uma autoridade
Se a Escritura fosse a única autoridade
interpretativa, esperar-se-ia uma unidade doutrinal entre aqueles que a seguem.
Contudo, a história mostra o contrário: milhares de interpretações divergentes
surgiram a partir da leitura individual do mesmo texto bíblico.
Por isso, desde os tempos apostólicos, a Igreja
reconhece a necessidade de uma autoridade de ensino confiada por Cristo aos
Apóstolos e seus sucessores, aquilo que a tradição católica chama de Magistério.
A visão católica: uma única fonte
transmitida de três modos
A fé cristã não se baseia em três fontes
independentes, mas em um único depósito da Revelação, transmitido de
três maneiras inseparáveis:
- Escritura – a Palavra de Deus
escrita.
- Tradição – a transmissão viva da fé
apostólica.
- Magistério – a autoridade que
interpreta autenticamente essa revelação.
Essa compreensão preserva tanto a centralidade
da Escritura quanto a continuidade histórica da fé apostólica.
Conclusão
A reflexão sobre o testemunho do Evangelho de João
mostra que limitar a revelação apenas ao que foi escrito não corresponde ao
modo como o próprio cristianismo nasceu e se desenvolveu.
A fé cristã foi primeiro vivida, pregada e
transmitida na Igreja, e somente depois parcialmente registrada nas
Escrituras. Por isso, a compreensão católica vê na Escritura, na
Tradição e no Magistério uma unidade orgânica que garante a fidelidade ao
ensinamento de Cristo ao longo dos séculos.
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