sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Os sete sacramentos

 

Os sete sacramentos acompanham o homem e a mulher em todos os momentos da vida do Cristão:

 Iniciação:

Batismo: Nascimento da pessoa e inserção na comunidade cristã;

Crisma: A pessoa confirma a sua fé e o desejo de caminhar com a comunidade.

Eucaristia: A eucaristia alimenta a fé, fortalece a caminhada para a vivência do batismo.

 Cura:

Penitência: Diante da queda, a reconciliação com a comunidade, com Deus, com o irmão e consigo mesmo.

Unção: Diante da enfermidade, a esperança da cura; diante da morte a esperança da vida eterna.

 Serviço:

Matrimônio: Assumir o compromisso com uma outra pessoa, a partir do amor ágape, colaborando na construção do reino.

Ordem: Compromisso com as pessoas, cuja missão é celebrar e viver o Cristo Bom Pastor, ajudando-as na construção do Reino.

 

 Como a ordem natural, os sacramentos apresentam os elementos na ordem espiritual:

 

1. O batismo é o nascimento da Graça;

2. A crisma é o desenvolvimento da Graça;

3. A eucaristia é o alimento da alma;

4. A penitência é a cura das fraquezas da alma;

5. A Unção dos enfermos é o restabelecimento das forças espirituais;

6. A ordem gera a autoridade sacerdotal;

7. O matrimônio assegura a unidade para a continuação do Reino de Deus colaborando com a unidade, a geração de filhos e a vivência do amor fraterno (família, berço da vida);

domingo, 23 de novembro de 2025

Solenidade de Cristo Rei

 

A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, foi instituída pelo Papa Pio XI em 1925 através da sua encíclica Quas Primas, publicada no dia 11 de dezembro.

·         Data Original: Inicialmente, a festa era celebrada no último domingo de outubro.

·         Mudança Pós-Vaticano II: Com a reforma litúrgica após o Concílio Vaticano II (em 1969), a Solenidade foi transferida para o último domingo do Ano Litúrgico (entre 20 e 26 de novembro). Esta mudança sublinha que Cristo é a meta da história e o fim último da nossa peregrinação terrena, encerrando e coroando todo o ciclo de celebrações.

 

A Motivação Principal (A Peste do Laicismo)

O Papa Pio XI instituiu esta festa em um contexto mundial marcado por profundas transformações e crises, especialmente após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e tinha uma motivação clara: reafirmar a soberania de Jesus Cristo sobre todas as esferas da vida humana e social.

A motivação central foi combater o que Pio XI chamou de "peste" de seu tempo: o laicismo (ou secularismo radical), que buscava remover completamente a autoridade e a lei de Deus e da Igreja das leis, da moral pública, da política e da sociedade.

·         Contra a Autonomia Radical: A festa servia como um lembrete solene de que as nações e os indivíduos não são soberanos absolutos. Mesmo as autoridades civis devem reconhecer que estão submetidas à autoridade moral e às leis de Cristo, o Rei dos reis.

·         A Solução para a Crise: Pio XI via o reconhecimento universal da realeza de Cristo como o remédio mais eficaz para os males da sociedade moderna, que incluíam a divisão, a ganância e a rejeição dos valores cristãos. Ele resumiu isso no lema: "A paz de Cristo no Reino de Cristo" (Pax Christi in Regno Christi).

 

Portanto, a Solenidade não é apenas uma devoção individual, mas um ato público que clama para que a justiça, a paz e a caridade, os atributos do Reino de Cristo que se manifestam na Cruz, possam moldar e redimir o mundo.

 

Cristo Rei, o Cordeiro Sacrificial

A Santa Igreja Católica celebra a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. É o coroamento do Ano Litúrgico e a proclamação da verdade central de nossa fé: Cristo é o Soberano de tudo o que existe, de todo o tempo e de toda a eternidade.

Mas a realeza que celebramos não é como a realeza deste mundo. A comunidade judaica esperava um Messias-Rei guerreiro, que empunharia a espada, travaria batalhas e libertaria Israel através do poder bélico. Um rei que, como num jogo de xadrez, sacrificaria seus "peões", o seu povo, para proteger a si mesmo no trono.

O Evangelho de hoje, porém, e toda a Escritura nos revelam o oposto: o nosso Rei se sacrifica em função da salvação de Seu povo.

 

1. O Rei Cordeiro na Escritura Sagrada

O profeta Isaías, ao falar do Servo Sofredor, já antecipava essa realeza paradoxal:

 

“Ele, porém, foi ferido por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz caiu sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” (Isaías 53, 5).

 

Esta é a imagem do Rei que sofre e carrega o peso de Seus súditos. E o apogeu desta verdade se encontra no Calvário. O trono de Cristo não é um palácio dourado, mas a Cruz; Sua coroa não é de ouro, mas de espinhos. O título real: "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus" (João 19, 19) foi afixado em Seu madeiro, o lugar de Seu supremo sacrifício.

O Apóstolo São Paulo resume essa realeza sacrificial na Epístola aos Filipenses:

 

“Tendo a condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo... humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2, 6-8).

 

2. A Realeza de Serviço e Sacrifício na Tradição

Os Padres da Igreja meditaram profundamente sobre esta singularidade. Santo Agostinho, por exemplo, nos lembra que Cristo reina servindo. Ele é o Rei cuja realeza se manifesta na caridade e na humildade. Ele lava os pés de Seus discípulos (João 13, 1-17), dando-nos o modelo de Seu governo.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) reforça que Jesus cumpriu a esperança messiânica não pela força militar, mas pela humilhação:

 

“O Reino de Cristo é 'justiça, paz e alegria no Espírito Santo' (Rm 14, 17). A vinda do Reino, na Sua realeza, realizou-se no mistério pascal (Sua Paixão, Morte e Ressurreição). [...] Cristo é o Rei do Universo por herança (Sua divindade) e por conquista (Sua Cruz).” (Ver CIC 786 e 668).

 

O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que Cristo estabeleceu Seu Reino não por manifestações de força, mas por Sua total doação:

 

“Cristo Senhor... consumou a salvação da humanidade e a glorificação perfeita de Deus com o Seu principal Sacrifício no altar da Cruz.” (Lumen Gentium 3).

 

3. Aplicações para a Vida Cristã

Irmãos, a Solenidade de Cristo Rei nos convida a reavaliar a nossa própria noção de poder. Se o nosso Rei se entrega por nós, também nós somos chamados a entregar a vida em sacrifício e serviço aos outros.

O poder de Cristo se manifesta no amor que cura, no perdão que liberta e na Eucaristia; o sacrifício do Rei Cordeiro, renovado em nosso altar. É o Rei que se faz Pão para alimentar o Seu povo.

Ao celebrarmos a Sua Soberania, renovemos nossa fidelidade a este Rei humilde, a este Rei crucificado, que provou que o amor sacrificial é a única forma verdadeira de reinar.

 

Cristo venceu! Cristo reina! Cristo impera!

 

Amém.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

A Misericórdia e a Justiça Divina diante da Vida Humana à Luz da Doutrina Católica

 Reflexão teológico-doutrinal a partir da obra de J. R. R. Tolkien

Resumo

A partir da célebre citação de Gandalf, personagem criado por J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis, este artigo propõe uma leitura teológica que integra a antropologia cristã e o magistério da Igreja Católica, especialmente quanto à inviolabilidade da vida humana, a ilegitimidade da pena de morte e a gravidade moral do aborto. A reflexão busca mostrar como Tolkien, profundamente influenciado por sua fé católica, expressa na literatura uma verdade teológica: o homem não é senhor da vida nem da morte. À luz da Sagrada Escritura, do Catecismo da Igreja Católica e do Código de Direito Canônico, demonstra-se que tanto a pena de morte quanto o aborto são expressões de uma justiça humana que, ao pretender corrigir o mal, acaba por negar o dom divino da vida.

Palavras-chave: Tolkien; Doutrina Católica; Vida; Pena de Morte; Aborto; Misericórdia; Justiça.

1. Introdução

Em O Senhor dos AnéisA Sociedade do Anel, Gandalf dirige a Frodo uma das frases mais marcantes de toda a obra de J. R. R. Tolkien:

“Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muitos sábios não conseguem ver os dois lados.” (TOLKIEN, 2001).

Essa citação carrega uma densidade ética e espiritual que ultrapassa o campo da ficção. Tolkien, católico praticante e profundamente influenciado pelo pensamento cristão, expressa aqui uma teologia da humildade diante do mistério da vida e da morte. A reflexão propõe uma leitura desta passagem à luz da doutrina católica, integrando Sagrada Escritura, Catecismo da Igreja Católica e Código de Direito Canônico, com enfoque nas temáticas da pena de morte e do aborto.

2. A vida como dom e mistério

A antropologia cristã parte de um princípio fundamental: a vida humana é sagrada e inviolável, pois tem em Deus sua origem e seu fim (CIC, n. 2258). A vida não é propriedade do homem, mas dom confiado à sua responsabilidade. Nenhum poder humano pode legitimamente decidir sobre o fim da vida inocente. A advertência de Gandalf ecoa esta verdade teológica: o homem, mesmo sábio, não detém a perspectiva total da justiça divina.

3. “Você pode dar-lhes a vida?” — A limitação do juízo humano

A pergunta de Gandalf possui um caráter teológico profundo: “Você pode dar-lhes a vida?” (Dt 32,39). Somente Deus é Senhor da vida e da morte. Este reconhecimento conduz à humildade diante do mistério da providência divina. O julgamento humano não pode pretender a retidão do juízo divino, conforme o Evangelho: “Não julgueis, e não sereis julgados” (Lc 6,37).

4. A pena de morte: o juízo sem misericórdia

Historicamente, a Igreja admitiu a pena de morte como último recurso de legítima defesa (CIC, ed. anterior, n. 2267). Contudo, o desenvolvimento da doutrina levou à reafirmação de que tal prática é inadmissível. O Catecismo atualizado declara: “A Igreja ensina, à luz do Evangelho, que a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa” (CIC, n. 2267). O Código de Direito Canônico, cân. 1311 §2, expressa o mesmo princípio: as penas têm sempre em vista o bem espiritual do fiel e a reparação do escândalo.

5. O aborto: o juízo humano contra a vida inocente

Se a pena de morte representa o abuso do poder sobre a vida do culpado, o aborto manifesta o mesmo abuso sobre a vida do inocente. O Catecismo ensina: “A vida humana deve ser respeitada e protegida de modo absoluto desde a concepção” (CIC, n. 2270). O Código de Direito Canônico, cân. 1398, reforça: “Quem procura o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.” Tal sanção não é mera punição, mas reconhecimento da gravidade espiritual de atentar contra o dom da vida.

6. Misericórdia e justiça: os dois lados que só Deus vê

A frase de Tolkien evoca o equilíbrio entre misericórdia e justiça. A justiça divina é perfeita porque é também misericordiosa: “A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2,13). A sabedoria de Gandalf reflete o coração do Evangelho: a justiça que não é temperada pela misericórdia se torna injusta.

7. Conclusão: A santidade da vida e o primado da esperança

À luz da doutrina católica, a frase de Tolkien assume força profética. Ela denuncia a pretensão humana de decidir o destino da vida e convida à conversão do olhar. Como ensina João Paulo II em Evangelium Vitae (n. 3), toda ameaça à vida humana exige solicitude e defesa. Tanto a pena de morte quanto o aborto revelam uma sociedade que perdeu a confiança na graça. Quem não pode dar a vida, não deve tirá-la — e quem conheceu o dom da Vida em Cristo, deve defendê-la até o fim.

Referências Bibliográficas

·         TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

·         BÍBLIA SAGRADA. Edições CNBB, 2018.

·         IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997; edição atualizada 2018.

·         IGREJA CATÓLICA. Código de Direito Canônico. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1983.

·         JOÃO PAULO II. Evangelium Vitae. Vaticano, 1995.

·         FRANCISCO. Carta ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a nova redação do n. 2267 do Catecismo da Igreja Católica. Vaticano, 2018.

Diác. Adriano Gomes

 Correção Ortográfica, formatação ABNT e associação das fontes e citações com auxilio do ChatGPT

Justiça não é Cura

 

Reflexão teológico-literária inspirada em J.R.R. Tolkien e na Doutrina Católica

 

"Nem deveis esquecer que [...] Justiça não é Cura. A Cura vem apenas por meio de sofrimento e paciência e não faz exigência nenhuma, nem mesmo Justiça. A Justiça opera apenas dentro das fronteiras das coisas como elas são [...] e, portanto, embora a Justiça seja boa em si mesma e não deseje nenhum mal a mais, pode acabar não mais do que perpetuando o mal que existiu e não o impede de produzir seu fruto de tristeza."


(O Anel de Morgoth, parte três: Leis e Costumes entre os Eldar)


A observação de Tolkien é profundamente perspicaz e encontra notável analogia na Teologia Católica, no Catecismo da Igreja e na Sagrada Escritura.

O Legendarium de Tolkien é todo permeado por temas cristãos, e a frase “Justiça não é Cura” toca o cerne da distinção entre a Lei e a Graça, entre a justiça legal e a Misericórdia Divina.


Justiça e Cura na Doutrina Católica

O conceito tolkieniano reflete a ideia de que a Justiça — entendida como retribuição, “dar a cada um o que lhe é devido” — é insuficiente para restaurar a integridade quebrada pelo mal ou pelo pecado.

A Cura (Redenção e Salvação), por outro lado, é um dom que vai além da mera justiça, atuando por meio da Misericórdia e do Sofrimento Redentor.

 1. A Justiça como Fronteira (O Limite da Lei)

Assim como Tolkien diz que a Justiça opera “apenas dentro das fronteiras das coisas como elas são”, a Lei — seja o Direito Canônico, seja a Lei Mosaica — estabelece os limites do que é lícito e devido, mas não tem poder para remover a raiz do mal.

·         Catecismo da Igreja Católica (CIC):

A Justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido (CIC 1807).

A Lei, porém, ainda que sagrada, não salva por si mesma: mostra o pecado, mas não concede a graça para superá-lo.

Assim, a Lei é pedagoga (cf. Gl 3,24), mas a salvação vem da fé e da graça de Cristo.

·         Código de Direito Canônico (CDC):

O CDC estabelece normas e penas (Cân. 1311ss) “para o bem da Igreja e a salvação das almas” (Cân. 1752).

As penas visam reparar o escândalo, restabelecer a justiça e corrigir o culpado, mas a cura espiritual (salus animarum) é sempre o objetivo supremo — ultrapassando a simples aplicação da sanção.

·         Passagens Bíblicas:

“Pela Lei vem, de fato, o conhecimento do pecado.” (Romanos 3,20)

A Justiça da Lei revela o mal, mas não oferece o remédio; mostra a ferida, mas não concede a cura.

 

2. A Cura pelo Sofrimento e Paciência (Misericórdia e Redenção)

Tolkien afirma que a Cura vem “apenas por meio de sofrimento e paciência” e “não faz exigência nenhuma, nem mesmo Justiça”.

Essa percepção ressoa profundamente na Teologia da Redenção, onde a Misericórdia de Deus supera a Sua Justiça.

·         Teologia Católica (Ato Redentor):

A cura definitiva da humanidade não se deu pela aplicação de uma justiça punitiva, mas pelo ato gratuito de amor de Cristo, que assumiu o sofrimento na Cruz.

Esse sofrimento, vivido com paciência e obediência, é a fonte da nossa cura (Redenção).

Em Cristo, a Justiça divina manifesta-se como Misericórdia (cf. Dives in Misericordia, São João Paulo II).

·         Catecismo da Igreja Católica (CIC):

A Justificação é “a obra mais excelente da misericórdia de Deus” (CIC 2020).

“A justificação continua a iniciativa da misericórdia de Deus, que oferece o perdão, reconcilia o homem com Deus, liberta-o da escravidão do pecado e cura-o.” (CIC 1990)

O sofrimento unido à Paixão de Cristo tem valor salvífico (CIC 1505):

é por meio da paciência e do amor que o sofrimento se transforma em instrumento de cura e redenção.

·         Passagens Bíblicas:

“Porque Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não se perca, mas tenha a vida eterna.” (João 3,16)

“O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado.” (1 João 1,7)

 

3. A Justiça que Perpetua o Mal (Justiça Humana Incompleta)

A observação de Tolkien — de que a Justiça “pode acabar não mais do que perpetuando o mal que existiu e não o impede de produzir seu fruto de tristeza” — denuncia a insuficiência da justiça retributiva.

A justiça humana, ao tentar reparar o mal apenas pela punição, muitas vezes mantém viva a lógica da retaliação, perpetuando o mesmo princípio de desordem que buscava corrigir.

 A justiça, quando desligada da caridade, tende a espelhar o mal que combate, reproduzindo-o em nova forma. 

“A ira do homem não produz a justiça de Deus.” (Tiago 1,20)

A vingança, ainda que mascarada de justiça, apenas alimenta o ciclo da dor e da culpa — um ciclo que somente o perdão é capaz de romper.

 

        A Justiça sem Misericórdia: limite e tragédia

Na ordem humana, o direito é necessário, mas limitado. Pode punir o infrator, mas não transforma o coração.

Pode restabelecer a ordem externa, mas não reconstituir a comunhão interior ferida pelo pecado. 

O Código de Direito Canônico reconhece isso ao afirmar que toda lei e pena têm como fim último a salvação das almas (Cân. 1752).

Quando a norma se torna um fim em si, esquecendo o bem da pessoa, ela se desvia de sua essência e torna-se farisaica:

“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã e negligenciais os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.” (Mateus 23,23)

 

        A Misericórdia como plenitude da Justiça

A verdadeira Justiça divina não é simples retribuição, mas restauração amorosa da ordem ferida.

Deus não destrói o pecador para eliminar o pecado — Ele o transforma pela graça.

 

“A misericórdia não suprime a justiça, mas é a plenitude dela.”

(Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q.30, a.4)

 

A justiça humana busca equilibrar contas;

a justiça divina busca regenerar comunhão.

No Calvário, Cristo não exigiu compensação, mas ofereceu perdão:

 

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23,34)Ali, a Justiça e a Misericórdia se beijaram (Salmo 84,11), e o mal foi desarmado pela entrega.

 

        A Cura que impede o mal de frutificar

A Cura, portanto, é a única força capaz de impedir que o mal continue a gerar tristeza.

A justiça, por si só, é reativa; a cura é criativa.

A justiça recompõe o passado; a cura inaugura o futuro.

 

Aquele que cura não exige compensação, mas oferece compaixão.

Assim é Cristo, que toma sobre Si a culpa alheia para que o mal não mais frutifique.

 

“A misericórdia triunfa sobre o juízo.” (Tiago 2,13)

 

Conclusão

A distinção entre Justiça e Cura que Tolkien traça é uma verdadeira chave para compreender o coração do Evangelho.

A Lei é necessária, mas apenas a Graça cura.

A Justiça ordena o mundo como ele é;

a Misericórdia o recria como ele deveria ser.

 

A Cura é o nome teológico do amor que vai além do direito.

E é nesse ponto que a sabedoria de Tolkien toca a mais profunda verdade cristã:

 

A redenção não é um ato de justiça satisfeita, mas de amor crucificado.



Diác. Adriano Gomes

 Correção Ortográfica, formatação ABNT e associação das fontes e citações com auxilio do ChatGPT